Prece


À você, tão sagrada mas quê não é deusa!

Lava a minh'alma com sua dádiva

Meus antepassados lhe contemplaram do ínicio ao fim
Cumpro com resígnação fiel ao que me impõe

Caminho com violência e fúria

Diante da solidão de sua face

Não tentes se ausentar de mim

Por mais cinzenta e agreste que possa ser

Eu suplico por poder recolori-la

Intentas mudanças como a da maré?

Intentas me naufragar?

Não ouso supor minha reação

Pois o que faço depende do que sou

E o que sou depende de você

Tú quê não há de lutar contra a morte

Pois a morte é sua irmã e lhe justifica

Tú: Existência

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Novidades!

Cara nova para o blog, não sei se será o visual definitivo mas vou testar para ver. Espero também retomar os posts por aqui, para não deixar tudo tão abandonado.
A outra novidade é o blog novo, esse exclusivo sobre a série Lost. Já que estamos perto do fim, vou aproveitar o último ano de espera para comentar alguns aspectos interessantes sobre o seriado. Fiquem a vontade para uma visita à ilha:

sábado, 23 de maio de 2009

Já que o assunto é...


...adaptações de quadrinhos, resolvi fazer uma lista com breves comentários daquelas que eu reconheço como as mais importantes dos últimos anos.

X-Men (dir. Brian Singer): Projeto muito bem sucedido resgatou o gênero dos super-heróis do buraco em que tinham sido jogados pelos péssimos filmes do Batman feitos por Joel Schumacher. Adaptaram a história de maneira séria, levando em frente a ótima discussão sobre preconceito e valorizando os personagens ao invés de ação gratuita. Poderia ser melhor, mas tem o seu mérito por ter aberto as portas para a adaptação de todos os outros filmes sobre heróis da Marvel. Compôs uma trilogia, sendo o segundo ótimo e o terceiro um pouco fraco.


Homem-Aranha (dir. Sam Raimi): Quem imaginava que iriam conseguir fazer o uniforme azul e vermelho do Aranha aparecer na tela grande sem parecer ridículo. De cara esse já foi o primeiro mérito: o uniforme ficou ótimo, exatamente igual ao dos desenhos e quadrinhos, mas com detalhes que o modernizaram e o tornou visualmente convincente. Sam Raimi acertou em cheio, fez um filme muito fiel á origem do personagem, divertido, e que conquistou o público. A continuação foi excelente. Só não da para entender como conseguiu estragar tudo no terceiro filme.






Todos os outros da Marvel: Quarteto Fantástico, Motoqueiro Fantasma, Demolidor (razoáveis) Hulk e Homem de Ferro (o Hulk de Ang Lee é odiado pelo público mas adorado pela crítica, sendo o novo muito bom e Homem de Ferro ótimo)




Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan): Já comentei ambos por aqui, portanto apenas um detalhe: embora a continuação leve o título de Cavaleiro das Trevas ela não é uma adaptação premiada da história de Frank Miller, que na verdade contava uma história sobre Batman após ter largado o manto do morcego.


Sin City (Robert Rodriguez): A melhor adaptação de uma história em quadrinhos. Meu argumento: Tudo o que está nas telas é exatamente igual ao que está no papel.


V de Vingança (James McTeigue): Excelente. Alterou várias seqüências do original, mas preservou a essência as partes mais importantes da história. Uma adaptação no sentido literal da palavra.






Constantine (Francis Lawrence) Um bom filme para quem não conhece os quadrinhos, mas uma adaptação muito irregular.



300 (Zack Snider): Caso raro onde o filme é melhor do que os quadrinhos. O original de Frank Miller impressionava pela arte, mas não era uma obra-prima. O filme conseguiu um efeito muito interessante justamente naquilo em que uma HQ é quase inexistente, a transição de uma imagem para outra.


Watchmen (Zack Snider): “É impossível adaptar Watchmen para as telas. Ele só faz sentido nos quadrinhos”. Snider conseguiu, fez o filme que era inadaptável, extremamente fiel ao original, cuidadoso em todos os mínimos detalhes, as pequenas alterações são muito bem justificáveis, tem algumas ausências mas que devem aparecer na aguardada versão do diretor que contara com 3:40 min. de duração. Excelente para quem conhece os quadrinhos, ótimo para expectadores que não conhecem o mundo dos quadrinhos mas que assistem à um filme ativamente e ruim e confuso para quem assiste filmes para passar tempo.

Sandman (Eu). Este vai ser o melhor de todos.

Conclusão: Quanto mais fiel ao original melhor o filme é. O público engole o que Holywood quer, tudo depende do marketing, portanto não faz sentido deturpar as histórias para um formato comercial.



quinta-feira, 12 de março de 2009

Quem vigia os vigilantes?



O mundo das histórias em quadrinhos foi marcado na década de 80 por uma santíssima trindade, composta pelos escritores Frank Miller, Neil Gaiman e Alan Moore que com suas criações conseguiram alavancar o gênero das graphic novel’s ao nível de literatura. As histórias contadas por esses roteiristas e um grande número de desenhistas, acabaram com o maniqueísmo do bem e mal, dos arquétipos de herói e vilão, trataram de temas pesados como sexo, violência e drogas de maneira realista, discutiram ciência, física, mitologia, psicanálise, filosofia e ampliaram consideravelmente a qualidade das histórias em quadrinhos, que de gibis passaram a ser chamadas de “novelas gráficas”. Entre essas produções as que obtiveram maior destaque foram Sin City, a série Sandman, V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas e aquela que é tida como a mais complexa e considerada por muitos a melhor de todas: Watchmen.
Ambientada durante a guerra fria, o mundo vive uma grande tensão pela iminente guerra nuclear que paira sob o conflito entre Estados Unidos e a União Soviética. A história inicia com a morte do Comediante, um herói da velha guarda que servira o governo americano, mesmo após a lei que proibia a ação de vigilantes mascarados. Rorschach, um dos últimos vigilantes ainda em atividade vai investigar a morte do antigo companheiro e percebe que pode haver uma conspiração, alguém tentando eliminar os heróis mascarados. Ao longo da série vamos conhecendo o passado de todos os outros personagens e as tramas começam a se ligar de uma maneira muito complexa, de modo que se torna um grande quebra-cabeça.
Por que Watchmen foi revolucionário? Em primeiro lugar os seus “heróis” não possuem super poderes, são pessoas comuns que por “desvios de personalidade” resolveram vestir fantasias esquisitas e sair a procura de criminosos, mais por hobby e diversão do que por um senso de justiça. Partindo desse ponto, os personagens são extremamente realistas e interessantes, sendo os seus conflitos os mesmo de qualquer pessoa normal. O primeiro grupo de vigilantes, por exemplo, os Minutemen de 1940, após encerrar suas atividades iam tomar uma cerveja no covil do primeiro Coruja, enquanto que Silhoutte conquistara um grande numero de inimigos por ser lésbica, o jovem Comediante tentou estuprar a primeira Espectral, o Mariposa acabou em um sanatório e Dollar Bill foi baleado ao tentar deter um assalto a banco por sua capa ter ficado presa na porta giratória.
Não apenas por tratar de assuntos como física quântica, teorias da relatividade, do caos e dos fractais, ou filosofia existencial e sociologia, mas a complexidade de Watchmen é atribuída principalmente a estrutura narrativa da história, a disposição simétrica dos quadros, o fantástico monólogo do Dr. Manhattan e sua consciência viajando pelo tempo na edição quatro, a contradição entre texto imagem na edição nove quando Rorschach é analisado pelo psicanalista e o seu profundo e amargo discurso justificando como se tornou um vigilante, enfim todo um universo ficcional construído com sutileza o bastante para convencer que tudo aquilo poderia acontecer no nosso mundo real.

O fato é que o diretor Zack Snider topou adaptar essa história para o cinema, mais por medo de saber que qualquer outro diretor talvez não demonstrasse o mesmo respeito a obra original e deturpasse o conteúdo. O resultado é um filme longo, denso, extremamente fiel aos mínimos detalhes dos quadrinhos (embora as limitações de tempo para condensar a história de doze edições em uma montagem de quase três horas de filme resulte em algumas ausências) e que tem como maior feito ser uma superprodução holywoodiana que discute temas relevantes e que cobra do espectador muito mais do que a passividade tão habitual no público de cinema.

quarta-feira, 11 de março de 2009

"Otelo" de Shakespeare


Encerrada a leitura de “O mouro de Veneza”, discorro sobre alguns detalhes que me chamaram a atenção. Esta tragédia shakespeareana é centrada nos temas da traição e o ciúme. Embora o título faça referência ao mouro general de Chipre, o personagem mais complexo da obra sob o meu ponto de vista é Iago, um alferez determinado a ver seu senhor cair em desgraça por inveja e frustração de não ter sido reconhecido e ganho um cargo de proeminência, cargo este delegado a Otelo. Iago se mostra ser um homem de má índole e dissimulado, porém de uma enigmática compreensão da natureza humana. Suas fascinantes concepções e intuições me levaram a acreditar que é sobre esse personagem que o poeta inglês se sentiu à vontade e recaiu uma leve projeção do seu espírito. Bom, isso é apenas uma especulação.
Levantando uma discussão a respeito dos efeitos do ciúme, a narrativa expõe concepções que (por ingenuidade minha) me pareciam ser típicas do nosso tempo, como por exemplo, a relação entre rotina e o esfriamento da paixão, arma com a qual Iago pretende simular um desvirtuamento da amada de Otelo, Desdemona. Há ainda uma divertida cena envolvendo os efeitos que a bebida causa em um soldado e dos demônios que compõe um copo de vinho, que acaba servindo como alívio cômico para a peça mas revela também o conhecido humor do bardo inglês.
A história me parece tratar sobretudo sobre a possibilidade de até o mais astuto dos homens servir de vítima para o mais engenhoso plano de usurpação, o que demonstra um senso de fatalidade bastante intrigante.

Elegia


A garota que eu mais amei na minha vida está morta. E embora eu ainda não tenha me dado conta disso, sei que este fato vai me transformar profundamente. Por enquanto ainda estou atônito, tentado digerir o que aconteceu, mas sinto uma angústia terrível (em parte por perceber nesses momentos o poço de egoísmo em que eu vivo).
Ela esta morta para mim da pior maneira. Ela está morta na lembrança. Derramei tantas lágrimas por ela no passado e nesta noite não derramei nenhuma. Mas ao poucos, conforme escrevo isso, eu me dou conta do quanto ela foi responsável na minha vida, e a idéia de que nunca mais a verei parece estar ficando mais palpável.
“Sem fotografias, o que me resta de você são aqueles bilhetinhos escritos em tinta verde dizendo que você me ama, o nosso primeiro beijo, a tarde que passamos juntos, o filme chato que te levei para assistir. As minhas infantis tentativas de lhe provar seja lá o quê. Tantos dias da minha vida tentando resolver a situação em que me envolvi por ter te conhecido, tantos pensamentos, tanta dor, para que ao final tudo tivesse uma resolução definitiva, impossível de voltar atrás. E talvez, nas poucas vezes que nós nos encontramos após aqueles anos eu me sentia confortável por no fundo saber que ainda tínhamos muita coisa para viver e quem sabe poderíamos rir juntos daqueles tempos passados. Agora não dá mais. As chances que eu tive de me reaproximar de você eu deixei passar e lamentar sobre isso não faz sentido. Eu só lamento que o seu fim tenha sido tão triste. Mas ainda vou descobrir onde você está, para lhe dizer adeus.”

17/02/2009

O medo de fechar os olhos


Não pretendi escrever sobre o filme aqui, mas depois que achei a resposta para algumas questões que ele levantou senti a necessidade.


Semanas atrás eu vinha me perguntando: Por quê Ensaio sobre a cegueira dividiu a crítica estrangeira em dois extremos, os que acharam "deprimente" e "estilistico demais", e aqueles que consideram a direção de Meirellez "um trabalho de mestre"? Sem querer causar suspense, a resposta me veio antes mesmo da pergunta, quando assisti a entrevista do diretor do filme no Canal Livre. Quando perguntado sobre a expectativa que ele tinha em relação ao público ele disse: "Não sei...é um filme muito subjetivo". Embora a crítica se volte para aspectos técnicos que podem ser analisados e qualificados, o fato é que assistir a esse filme é uma experiência puramente subjetiva. Por mais que as atuações sejem ótimas, as resoluções de fotografia e utilização das cameras sejem geniais, a edição e sonoplastia extremamente eficientes, existe algo neste filme que pode tocar profundamente sua alma, independente desses aspectos. Vou tentar explicar melhor a seguir.


Cabe lembrar que não li o livro, mas tudo o que eu havia lido a respeito da obra do ganhador do Nobel de literatura José Saramago levava a entender que a metáfora da cegueira era uma forma de falar sobre o preconceito, intolerância ou crítica social moderna. Porém ao ver o filme, pensando principalmente o personagem de tampão no olho, acabei absorvendo a questão da cegueira como uma questão de interioridade. Perder a relação sensitiva mais forte que nós temos como o mundo exterior seria ao mesmo tempo mergulhar na mais profunda fenda daquilo que chamamos de "eu". Por isso, para mim pelo menos, esse é um filme sobre subjetividade. Cada pessoa que assisti-lo (ou ler o livro) pode pensar sobre o quanto conhece sobre si mesmo além daquilo que vê nos espelhos. E por falar em espelhos eles são muito bem usados no filme, em cenas que você confunde o reflexo com a imagem real por exemplo, montagens características de Fernando Meirellez.

Voltando a falar de subjetividade, agora da minha subjetividade. A cegueira é uma coisa que me assombra. Desde que era criança e vivia desenhando carros de fórmula um, eu tenho uma relação de amor com as imagens. Ás vezes olho para uma árvore e fico desenhando seus contornos na minha cabeça e calculando quantos tons de verde eu usaria para pintá-la. Dessa forma meus olhos se tornaram uma espécie de máquina fotográfica para a memória, sempre tentando capturar o melhor ângulo e a melhor iluminação para que as lembranças fiquem mais bonitas. A mais ou menos dois anos meu pai sofreu um derrame na retina de uma das vistas que fez com que perdesse 60% por cento de um dos olhos, e as imagens agora tem um reflexo esfumaçado na lateral. Ele disse que quando sentiu isso, estava deitado, se levantou correndo do quarto, saiu para fora da casa por quê precisa respirar. Diz que sentia como se alguma coisa estivesse caindo em cima dele. Voltou para o quarto em seu característico silêncio e permaneceu alguns dias sem tocar no assunto, embora minha mãe tivesse notado que alguma coisa tinha acontecido. Recentemente outro caso na família, não pela mesma causa, mas ameaça minha tia a perder a visão. Ela diz o mesmo que um personagem do filme: "Prefiro morrer do que viver assim".

É por isso que Ensaio sobre a cegueira é um filme subjetivo. Porque nem todo mundo irá sentir essas coisas, mas vai entender esse estado de outra forma. Porque as cenas embaçadas em explosões brancas na tela soam como meu pai falando. Porque ele diz que tudo começou com um ponto insistente na visão. Porque quando estou lendo e o sol muito forte bate nas páginas em branco, eu vejo o ponto e para onde olho na página ele continua sempre no centro do foco. E quando isso acontece eu fecho o livro, porque minha pressão sobe, o coraçao dispara e isso é o suficiente para causar um derrame. Porque eu tenho medo. E por mais que eu ame a música eu não sei o quão angustiante seria apenas ouvir o mundo e não poder ver mais as suas belas cores.


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Para ver outra opinião subjetiva sobre o filme leia o texto da minha companheira de choro na sessão do cinema: http://noitesquenaodormi.blogspot.com/2008/09/i-can-see.html

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

 
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